quinta-feira, 22 de abril de 2010

Quede graça num sorriso?

Nem vontade de andar. Comer, dormir nada do necessário. Quero o contrário, sem nem mesmo saber de onde ele vem. Quede palavras escolhidas? Quede desejo de viver?
Sumiu. Tudo some e volta. Ah, escrava Josefa. Trate de chamar aquele negrinho pra encontrar minha razão. Com a vela acesa, o fogo me encanta. Mas só. Paraliso diante dele. Tão belo, denso e orgânico. Esse que me tira o ar, me comove, me aquece. Me queima, me faz reagir. Bolhas surgindo em minha pele, só quero que me disperte. As sete da manhã tá bom. Chame-me duas vezes. Sem terceiras chances. Tolice insistir. Persistência tem que vir junto com a paciência. Angustiante esperar. Me corroendo, sem dedos para roer, sem água pra me reanimar, continua ali eu parada só olhando. Já hipnotizada, por vezes volto a perceber que estou viva. Esqueci de respirar, esqueci de forçar meu coração bater. Involuntária as lágrimas que me dizem. Me perseguem. Quando finalmente quero fugir, ficam tracejando, úmidas que são, ponto a ponto no chão de onde pisei. Migalhas igual dos contos.
Já pedi pra sumir, mas não. Vem a fome e me faz sentir abatida, mas ainda na moção da vida vivida. Só não sei se quero matar a fome ou deixar eu morrer de vez. De que adianta tantas experiências, se sempre que quero lembrar de outr'ora, movimentar a mínima intenção do sorriso, o tapa me vem a cara. Já pedi, só quero sair daqui. Pra depois voltar renovando esse lugar. Partir desse lado do rio, provar que sei nadar. Olha!: eu tenho duas pernas ainda. Tenho ainda a infelicidade de ter esperança e o sangue da batalha. Acredito que isso pode me ajudar, mas não sinto. Desolada, esquecida em mim, no martírio, angústia e infortúnio de me aturar no espelho dos olhos que me vêem. Vendo que o fracasso está tênue e tangenciando o sucesso. Pra que os dois? Não basta apenas viver? Não basta apenas sustentar seu próprio corpo. Dicotomia, paradoxos, ambiguidade trouxas. Ignorantes humanos que não sabem o que é respeitar. Respeito sem outra interpretação senão seu sentido único. Não sabem que, embora feito de carne igual a ti e igual seu próximo, tem uma história e genética milenar diferente. É! Realmente não sabe. Não sabe! É a básica e suficiente lógica de convivência. Já tudo se repete. De novo. Outra vez. No fundo tudo quer provar uma só coisa: provar nada. Sinta apenas sinta, me disseram. Mas pra que sentir? se não tenho que provar nada. Pra que sentir se não para questionar pela prova se não é necesário provar. Alguém me diz, por favor por que vivemos? Por que eu quero continuar a viver? Porque eu quero continuar a viver.

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